segunda-feira, setembro 18, 2017

IMAGINÁRiO Extra - O INFANTE PORTUGAL vol.3

José de Matos-Cruz | Maio 2012 | Edição Kafre | Ano X – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO


O INFANTE PORTUGAL E AS SOMBRAS MUTANTES

A rotina sibilina de Lisboa é, imprevistamente, perturbada pela súbita ausência de Nero Faial, o impecável Curador da Fundação de Artes Narcisistas. Movem-se, então, ambições e frustrações – a par com bizarras aparências e intrusões, cuja evocação ou revelação abala a vivência e a memória de gente influente ou dos heróis urbanos. Um primordial Infante Portugal estranha, sobretudo, o inquietante apagamento de Vulcão – o seu mais implacável adversário, e paradoxal líder do submundo. E, como Rui Ruivo, perspectiva – no virtual ponto de intercepção entre aquela figura pública e este mestre marginal – uma subversão alegórica da realidade social e legal, que irá pôr em risco o próprio equilíbrio na vigência do tempo sobre a natureza das pessoas. Ciclos, mutações. Segredos a descoberto, espíritos desprotegidos. Assim, sobrevém a decadência, crispam-se os desígnios – que, desafiando a dimensão mítica e prosaica, avassalarão o conflito entre as luzes e as trevas, numa vertigem onírica, irreversível. Suscitando turbulências, subjugando expectativas. Evoluindo a volúpia de outros prodígios e inquietudes…
Tormento, expiação. Sombras volúveis que se adensam sobre a hibridez diurna, espectros suspensos à deriva na fugaz cintilação do caos. A meio de um labirinto sem princípio nem destino. E o mistério da evidência ou da renúncia num coração justiceiro. Entretanto, em tal crepúsculo aventuresco e imaginário, emerge o fulgor épico de Aurora Boreal – um misto fabuloso de candura e acinte, de arrebato e paroxismo, ao vibrar o elã cósmico com a matriz humana.

OBSERVATÓRiO

Por fim on-line, apresento o trailer promocional [da Terceira Jornada, a derradeira] d’O Infante Portugal, a saga de magia e super-heróis portugueses de José de Matos-Cruz, editada pela Apenas Livros.
Apresentado em Dezembro de 2011, como parte do programa da cerimónia de entrega dos IX Troféus Central Comics, no auditório do Hard Club do Porto, que devolveu às lides da bd o lendário (e recuperado) Mercado da Ribeira, quisemos fazer nele uma antevisão da intriga e mostrar algumas ilustrações que eu e a Susana Resende preparámos. Duas são finalizadas pelo Daniel Henriques, como arte-finalista convidado, e na sequência de abertura há também representações alternativas do protagonista pelos autores José Garcês, Rui Lacas, Augusto Trigo e António Jorge Gonçalves.



INVENTÁRiO

ILUSTRADORES
Isabel Aboim, Filipe Abranches, Renato Abreu, Teotónio Agostinho, João Amaral, Ana Biscaia, Cação Biscaia, Richard Câmara, João David, Luís Diferr, Fernando Filipe, Sara Franco, José Garcês, Daniel Henriques, Catherine Labey, Daniel Maia, Zé Manel, João Mascarenhas, Pedro Massano, Baptista Mendes, Fernando Vilhena de Mendonça, Victor Mesquita, Susa Monteiro, Nuno Pereira, Susana Resende, André Ruivo, José Ruy, Eugénio Silva, Augusto Trigo, Maria João Worm, Carlos “Zíngaro”.


BREVIÁRiO

Apenas Livros, da editora Fernanda Frazão, publica O Infante Portugal e as Sombras Mutantes por José de Matos-Cruz, a conclusão desta saga do escritor, iniciada em 2007 (pela chancela Kafre). IMAG.321-322

ANUÁRiO

2010 - Apenas Livros (apenaslivros2@gmail.com) edita a Primeira e a Segunda Jornadas de O Infante Portugal por José de Matos-Cruz, respectivamente As Tramóias Capitais e A Íntima Capitulação.

domingo, setembro 17, 2017

IMAGINÁRiO #372

José de Matos-Cruz | 24 Maio 2012 | Edição Kafre | Ano IX – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

SAGRAÇÃO
Grande artista das histórias em quadradinhos - nascido em Portugal, naturalizado brasileiro - Jayme Cortez (1926-1987) voltou a Lisboa em 1973, após permanência no Salão Internacional de Lucca, e durante uma digressão pela Europa, com estadias em Paris e Londres. Veio rever amigos, reviver as pulsões da cidade natal, conhecer um novo entusiasmo pela banda desenhada, tendo participado em exposição da sua obra mais recente na Livraria Quadrante. Acompanhado por Márcio de Sousa - irmão do criador de Mônica, Maurício, e seu argumentista - e por de Adhemar Carvalhaes - director do Departamento de Cinema do Museu de Arte de São Paulo - o autor de O Vale da Morte cumpriu o desejo de atravessar a Ponte sobre o Tejo, até Almada, tendo-me evocado as suas origens: «Tudo começou n’O Mosquito, e graças a Eduardo Teixeira Coelho. Levei-lhe lá uns originais, muito rudimentares, mas ele considerou que eu tinha talento… Fiz então uns trabalhos, que achou estupendos. Entretanto, passei a ser publicado em 1943, com Uma Estranha Aventura. Contava histórias populares, que falassem da nossa gente. Acho que este é o caminho certo…» IMAG.78-87-117-129

CALENDÁRiO

30JUN-05OUT2011 - Em Lisboa, Museu do Chiado estreia Arte Portuguesa do Século XX (1910-1960) - Modernidade e Vanguarda, sendo curadora Adelaide Ginga.

15JUL-02OUT2011 - - No Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves expõe, em produção com Kunstverein de Dusseldorf, Casa: Modo de Usar de Leonor Antunes, sendo comissária Nuria Enguita.

1919-17AGO2011 - Gualtiero Jacopetti: Cineasta italiano, precursor do shock(do)cumentary, realizador de Mundo Cão / Mondo Cane (1962) - «um filme que projectava em grande ecrã a representação da realidade».

1930-18AGO2011 - Jean Tabary: Ilustrador francês de banda desenhada, nascido na Suécia, criador de Iznogoud (1962, com René Goscinny) - «Je veux être calife à la place du calife!». IMAG.119

1927-19AGO2011 - Jimmy Sangster: Escritor inglês, argumentista de clássicos da Hammer, como O Horror de Drácula / Horror of Dracula (1957), A Vingança de Frankenstein / The Curse of Frankenstein (1958) ou A Múmia /The Mummy (1959) - «Por meia dúzia de filmes, fizeram de mim uma figura de culto».

1923-22AGO2011 - Vicco Von Bülow, aliás Loriot: Humorista alemão - escritor, ilustrador e actor - «De certa maneira, a comédia só resulta quando o presumível herói acaba por falhar» (2003).

1928-22AGO2011 - Maria Lucília Moita: Poetisa e artista plástica portuguesa, herdeira da estética de Silva Porto e de Henrique Pousão - «A pintura, para mim, não é um passatempo, é uma exigência».

1933-22AGO2011 - Jerry Leiber: Letrista americano, autor - com o compositor Mike Stoller - de sucessos como Jailhouse Rock e King Creole (por Elvis Presley); integrados no Rock and Roll Hall of Fame (1987) por «levarem o rock and roll a novos píncaros de espirituosidade e sofisticação musical».

25AGO2011 - ZON Lusomundo estreia Conan - O Bárbaro / Conan the Barbarian de Marcus Nispel; com Jason Momoa e Rachel Nichols, sobre o herói de Robert E. Howard (1906-1936), revelado em As Crónicas de Nemédia. IMAG.67-301

30AGO-22SET2011 - No Centro de Interpretação Ambiental da Pedra do Sal/CIAPS, em São Pedro do Estoril, Agência Cascais Atlântico/Câmara Municipal de Cascais apresenta A Descrever Esta Língua Que É Mar, exposição de fotografia de José Rodrigues, com textos de Isabel Mendes Ferreira.

09SET-02OUT2011 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I expõe, com Colomer & Sons, Celeste Maia, Arte No Pulso.

MEMÓRiA

27MAI1912-18JUN1982 - John Cheever: Escritor norte-americano, distinguido com o Prémio Pulitzer / Ficção em 1979 - «Estes contos parecem por vezes a história de um mundo há muito desaparecido, quando a cidade de Nova Iorque era ainda inundada pela luz do rio, quando se ouvia Benny Goodman no rádio da papelaria da esquina e quando quase toda a gente usava chapéu». IMAG.275

29MAI1922-1999 - António Campos: Cineasta português - «Basta-me pensar num filme, e ter um mínimo de dinheiro para o fazer. Entrego-me de corpo e alma quando os temas me sensibilizam, me apaixonam». IMAG.96-180-217

1938-29MAI1982 - Rosemarie Magdalena Albach, aliás Romy Schneider: Actriz austríaca de cinema - «Na vida, não sou nada - mas, no ecrã, torno-me tudo». IMAG.325




PARLATÓRiO

Histórias Macabras

JAYME CORTEZ EM PORTUGAL

Começaste n’O Mosquito, mas cedo foste para o Brasil…Porquê?
- Em breve, o mercado português pareceu-me demasiado pequeno, com poucas oportunidades… E, como recebia, há anos, todas as edições brasileiras de banda desenhada, onde só se publicavam coisas americanas, achei que no Brasil não haveria desenhadores, pelo que sonhava com aquele país como o El Dorado. Na verdade, o dito exclusivismo devia-se ao predomínio dos trusts… E, durante trinta anos, lutei por impor o trabalho dos criadores nacionais - para lograr a nossa sobrevivência. Confesso-te que considero, este, o aspecto mais interessante da minha actividade no Brasil - mais, até, do que o meu trabalho pessoal…
Como caracterizas o terror brasileiro nas histórias em quadradinhos?
- No Brasil, tudo o que seja místico, religioso, feiticista, tem muita aceitação. Quando o género decaiu na América (com a caça às bruxas do senador MacCarthy, nos anos ’50), por lá o terror tomou caminhos muito próprios, indígenas, embora com uma carga bastante grande do carácter importado. No entanto, empregávamos toda uma série de elementos nossos, como zombies, escravos, todas essas coisas bem brasileiras… Para mim, o terror tem chances plásticas - clima dramático, efeitos de iluminação - que os outros temas não permitem desenvolver.
Além disso, temos a tua enorme relevância como cultor do preto e branco…
- Sim, para mim todas as formas de expressão têm a sua própria caracterização, a sua arte. A utilização da cor deixa escapar, ou logra encobrir a mediocridade…. A preto e branco, em banda desenhada (que possui uma técnica muito difícil), não se podem disfarçar as imperfeições, a mediania. Eu sou uma pessoa explícita, muito sincera, que não procura o fácil, e, por isso, o preto e branco é a minha maior paixão, pois com ele não se pode enganar ninguém…
José de Matos-Cruz
- Ploc! Revista de Banda Desenhada - Primavera de 1974 (excertos)

NOTICIÁRiO

A média da exportação de azeite português para países estrangeiros, no período de 35 anos, que decorreram de 1796 a 1831, foi em números redondos de 40 mil decilitros, sendo de 400 mil nos últimos quatro anos, de 1867 a 1870.
27MAI1872 - Diário de Notícias

OBSERVATÓRiO

www.maisevezes.com - +(&)× - Mais Vezes - Fanzine literario / matemático /artístico / electrónico, criado por Francisco José Craveiro de Carvalho e J N Bolito.
IMAG.16-117-130-177-190-209-226-255-276-299-330


Evocação de Jayme Cortez

Museu virtual mostra obra de autor português de banda desenhada d’O Mosquito que se destacou no Brasil
Intitula-se apenas Jayme Cortez e é um blog que tem por objectivo «tornar acessível ao maior número de pessoas a obra do Mestre Cortez», escrevem na sua introdução Jayme Cortez Filho e Fabio Moraes, responsáveis pela iniciativa. Em entrevista recente, este último revelou que «o blog faz parte de um projecto maior, a publicação de um livro de arte sobre a vida e a obra de Jayme Cortez».
Nascido em Lisboa, a 8 de Setembro de 1926, o autor estreou-se no
Mosquito em 1943, tendo publicado uma mão cheia de bandas desenhadas, entre as quais Os 2 Amigos Na Cidade dos Monstros Marinhos e Os Espíritos Assassinos. Comum a todas elas era o protagonismo entregue a miúdos - inspirados nos seus amigos do Bairro Alto -, o realismo do traço baseado em modelos vivos e o grande dinamismo das histórias que escrevia e desenhava.
Em 1947, partiu para o Brasil, onde, a par de bandas desenhadas como O Retrato do Mal ou Zodíaco, foi jornalista, ilustrador, cartoonista, professor e autor de livros sobre ilustração e histórias aos quadradinhos, director de Arte dos Estúdios Maurício de Sousa e fez parte da organização da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, que teve lugar em São Paulo, em 1951, o primeiro evento do género realizado em todo o mundo. Tendo adoptado a nacionalidade brasileira em 1957, é considerado um dos grandes mestres dos quadradinhos do Brasil, onde viria a falecer a 4 de Julho de 1987.
O blog, actualizado diariamente e disponível em http://jaymecortez.blogspot.com/, destaca-se pela divulgação de documentos inéditos ou pouco conhecidos, incluindo ficheiros de áudio ou vídeo e fotos de várias épocas, nalgumas das quais ao lado de autores como Stan Lee ou Maurício de Sousa.
A par deles, uma vez que o blog pretende ser um autêntico museu virtual, surgem as reproduções da sua obra multifacetada - capas de livros, ilustrações, desenhos publicitários, pranchas de bd - em muitos casos desde os primeiros estudos até ao desenho definitivo e à posterior aplicação da cor. São igualmente referidas curiosidades, como o facto de ter sido Cortez a desenhar a capa do nº 1 da revista de Bidu, um dos primeiros heróis de Maurício de Sousa.
F. Cleto e Pina
- 27MAI2011 - Jornal de Notícias

COMENTÁRiO

Maia - Arte No Pulso

A artista portuguesa Celeste Maia, conhecida pela sua pintura figurativa, correspondeu com entusiasmo ao complicado desafio de Colomer & Sons, empresa espanhola, de pintar mostradores de relógios. Esta forma de arte é raramente praticada devido às dificuldades técnicas e à escala diminuta do trabalho. Ao investigar diversos temas, Maia desenhou mais de 200 ideias, tendo chegado a 20 conceitos, que nos transportam a outras dimensões. O resultado é uma série deslumbrante de pinturas assinadas nos relógios, cada uma com título e história, cada uma partilhando um aspecto diferente da noção de Tempo. Estes relógios reflectem pensamentos científicos, experiências históricas, assim como o maior mistério de sempre, o próprio Tempo. A Arte do Tempo no pulso.

BREVIÁRiO

Edições 70 edita Do Espírito das Leis de Montesquieu (1689-1755); tradução e introdução de Miguel Morgado. IMAG.25

Sony edita em CD e DVD, sob chancela Columbia/Legacy, Bridge Over Troubled Water por Paul Simon & Art Garfunkel.

Sextante edita A Cidade de Ulisses de Teolinda Gersão.

sábado, setembro 16, 2017

IMAGINÁRiO #371

José de Matos-Cruz | 16 Maio 2012 | Edição Kafre | Ano IX – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

FASCÍNIOS
Trinta anos passados sobre a sua morte, Jacques Tati (1907-1982) encena uma segunda ressurreição, voltando aos virtuais rituais de tela após uma prévia divulgação ampla, em meados da década de ’70, que permitiu atrair as jovens gerações e consolidar o prestígio de um dos mais versáteis criadores cómicos. Génio do cinema europeu, com um olhar à vivência americana, tudo se consumou na personalidade excêntrica, solitária e silenciosa do Sr. Hulot. Eu estranhava as suas meias às riscas, o lacinho e aquele chapéu ridículo, mas fascinava-me por fumar cachimbo. Francês de origem russa, nascido Jacques Taticheff em Pelq, adolescente desportista e artista de music-hall, Jacques Tati abrilhantou várias curtas metragens em 1932-46, modalidade que escolheu para lançar-se como realizador (L’École de Facteurs, 1947). Fanático da montagem, perdulário durante a rodagem, a partir de uma rigorosa planificação visual, despediu-se com Parade em 1974.

CALENDÁRiO

1926-15AGO2011 - José Fontes Rocha: Guitarrista português, Prémio Amália Rodrigues Melhor Compositor de Fado em 2005 - integrou o conjunto de Raul Nery, tendo acompanhado fadistas como Alfredo Marceneiro ou Hermínia Silva. IMAG.342

1914-17AGO2011 - Michel Mohrt: Escritor, ensaísta e editor, membro da Academia Francesa (1986) - «Bretão, católico e selvagem» (Jean d’Ormesson).

25JUL1941-19AGO2011 - Raul Ruiz: Cineasta chileno, exilado em França - «Uma pessoa vinda de uma outra época, que conhecia tudo sobre tudo, de uma cultura imensa sob todos os pontos de vista, e que vivia ancorado entre dois países, o Chile e a França. Ele adorava a fusão entre as diversas culturas. Ele fez filmes em vários países do mundo. Era sem dúvida um dos grandes espíritos, muito além do cinema, da própria época moderna» (François Margolin). IMAG.287-330-357

MEMÓRiA

1527-23AGO1591 - Frei Luis de León: Humanista, teólogo e poeta espanhol - «Vivir quiero conmigo, / gozar quiero del bien que debo al Cielo, / a solas, sin testigo, / libre de amor, de celo, / de odio, de esperanzas, de recelo».

1885-25OUT1941 - Robert Delaunay: Pintor francês, ligado ao abstraccionismo e ao cubismo, explorou ainda o impressionismo - com uma série dedicada à Torre Eiffel - e viveu em Portugal, sendo amigo de Almada Negreiros. IMAG.154

18MAI1872-1970 - Bertrand Russell: Escritor, matemático e filósofo inglês - «Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no facto de serem os estúpidos aqueles que têm a certeza, enquanto os que possuem imaginação e inteligência se debatem em dúvidas e indecisões». IMAG.261

VISTORiA

Os dez Princípios de um Código de Conduta

1. Não tenhas certeza absoluta de nada.
2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontra mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares ocultá-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.
Bertrand Russell
- Autobiografia
INVENTÁRiO

O REGRESSO DO SR. HULOT
«Há uma maneira de resolver todos os problemas económicos - taxar a vaidade com impostos elevados», comentava Jacques Tati - que, através de uma carreira ímpar, como realizador e intérprete, virtualizou os dilemas e os paradoxos da sociedade contemporânea, estilizados na irresistível personagem de Sr. Hulot.


HÁ FESTA NA ALDEIA (1949)
Durante a feira anual numa aldeola, a exibição dum filme americano - sobre os métodos, rápidos e ultramodernos, de distribuição pelos correios - coloca o carteiro François numa posição ridícula, perante os conterrâneos. Decidido a provar a sua eficiência, François - um modelo de consciência profissional, embora disponha apenas duma bicicleta - inventa então os mais irresistíveis truques, para levar, sem demora, a correspondência aos destinatários... Rodagem em Saint-Sévère-Sur-Inde (1947).
Primeira longa metragem de Jacques Tati - histriónico protagonista, antes de ser o Sr. Hulot - ainda numa expressão embrionária, quanto aos requisitos hilariantes, ao estilo narrativo, à definição de personagens e à eficácia dos gagues. Mas já sóbrio e virtual na poesia do grotesco, patenteando um clássico do humor - galardoado pelo melhor argumento no Festival de Veneza (1949) e com o Grande Prémio do Cinema Francês (1950).

AS FÉRIAS DO SR. HULOT (1953)
Sem fazer caso das centenas de pessoas que, como ele, se decidem por umas férias na praia, o Sr. Hulot faz-se à estrada, provocando a cólera e o pânico entre os condutores e acompanhantes que enfrentam bichas intermináveis. Intrépido, imperturbável, o Sr. Hulot chega ao hotel de veraneio, onde causa novas catástrofes ao desafiar a rotina instalada entre os hóspedes. Mas nada afecta o seu optimismo empreendedor, ao organizar um passeio de burro ou um baile de máscaras...
Rodagem em Saint-Marc-Sur Mer, próximo de Saint-Nazaire, na costa da Bretanha (1951-52). Autor integral - como argumentista, realizador e protagonista em apresentação emblemática - Jacques Tati revitaliza as virtualidades da comédia de costumes pelos estigmas do humor, ao assumir um modelo sarcástico e emblemático. Distinguido com o Grande Prémio da Crítica Internacional no Festival de Cannes (1953) e o Prémio Louis Delluc do Cinema Francês.

O MEU TIO (1958)
Sentimental, o Sr. Hulot vive com um passarinho em velho casarão, cheio de histórias e perfumes. Tal provoca a ironia do irmão Arpel, que habita com a mulher e um filho numa casa recheada de móveis modernos e assépticos utensílios de cozinha. Mas o jovem sobrinho é seu admirador incondicional, deliciando-se ao passearem de bicicleta ou com os efeitos dos seus modos desengonçados...
Primeiro filme colorido de Jacques Tati, a rodagem decorreu em Créteil e Saint-Maur-les-Faussés. Atraindo calamidades ou suscitando o caos, o Sr. Hulot subverte as regras e os peões duma sociedade normalizada e comodista, afinal indiferente à desumanização tecnológica. Considerado «reaccionário» pelo crítico André Bazin, foi Prémio Especial do Júri no Festival de Cannes (1958), e um fenómeno maior de popularidade: apresentado em duas salas num regime de exclusividade, em França, estabeleceu um recorde de 520.000 espectadores.

PLAYTIME - VIDA MODERNA (1967)
Paris, ano 2000. Os prodígios e cintilações da Cidade da Luz. A imponência futurista do Aeroporto de Orly. O tempo de lazer dos turistas atarantados - americanos ou homens de negócios, entre os prazeres do consumo e os requintes cosmopolitas. A inauguração do Royal Garden, estilizando num jantar dançante os rituais de cabaré...
Dois anos (1965-67) de rodagem, em negativo de 70 mm, usando a amplitude do ecrã segundo um conceito estético e narrativo de desmultiplicação da imagem. Jacques Tati pretendeu um «mural impressionista» em vários quadros simultâneos, pelos quais se contrastam as vastas figurações, os episódios histriónicos e o envolvimento cénico. François Fruffaut saudou «um testemunho dez anos adiantado aos padrões do cinema». Porém, o insucesso comercial arruinou financeiramente Jacques Tati, forçando a nova interrupção numa carreira retomada com Trafic - Sim, Sr. Hulot (1971), em nostalgia e consagração.

BREVIÁRiO

Clap Filmes edita em DVD, Há Festa Na Aldeia / Jour de Fête (1949), As Férias do Sr. Hulot / Les Vacances de Monsieur Hulot (1953), O Meu Tio / Mon Oncle (1958) e Play Time - Vida Moderna / Play Time (1967) de Jacques Tati. IMAG.225

Harmonia Mundi edita em CD, Johann Ludwig Bach [1677-1731]: Trauermusik por Akademie für Alte Musik Berlin, sob a direcção de Hans-Christoph Rademann.

Tinta da China edita Antero de Quental e a Viagem à América - Remando Contra a Maré de Ana Maria Almeida Martins. IMAG.59-147-338-367

sexta-feira, setembro 15, 2017

IMAGINÁRiO #370

José de Matos-Cruz | 08 Maio 2012 | Edição Kafre | Ano IX – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

IMAGENS
Os últimos anos de cinema mudo em Portugal, até princípios da década de ’30 do Século XX, acentuam uma existência precária e contingente, fortemente marcada, num âmbito criativo e cénico, pela experiência individualista, o entusiasmo pontual, a vontade de expressão, a afirmação pelo imaginário - dilemas e virtualidades que, tornando determinante a maturidade de Rino Lupo, ou o apoio técnico de profissionais, logo ao nível da fotografia, da montagem e dos laboratórios, suscitam ainda, quanto às perspectivas de produção, o aparecimento de empresas efémeras, ou um nexo significativo com o sector da distribuição. Eventualmente, as deficientes infra-estruturas são escamoteadas pelo apelo, mesmo da vizinha Espanha, às instalações da antiga Invicta Film - uma ambição industrial que, embora malograda, deixou vivências, recursos e operacionais decisivos, em tempos de incerteza e dificuldade, quando já se avoluma a expectativa de uma viragem irreversível, em termos narrativos, testemunhadores e, sobretudo, de motivação artística e transformação mediática. Entretanto, a tradição rural portuguesa tem reflexos em Hollywood. É, ainda, nesta fase transitória mas mobilizadora, que se lança uma primeira geração de realizadores nossos - sob factores, alternativas, objectivos e desafios que, além da sua efectiva manifestação iniciática, implicariam a prática e a realidade do cinema nacional, durante os primeiros três decénios do sonoro.

MEMÓRiA

1880-15ABR1942 - Robert Musil: Escritor austríaco - «Não é que o génio se adianta um século em relação ao seu tempo, é a Humanidade que se encontra cem anos atrás dele». IMAG. 56-202-231-236-297-366

1699-08MAI1782 - Sebastião José de Carvalho e Melo: Conde de Oeiras e Marquês de Pombal - «É mais eficaz a moderação com que se repreende do que a severidade com que se castiga». IMAG.17-19-39-54-84-194-256-340

1849-14MAI1912 - August Strindberg: Ficcionista e ensaísta sueco - «Somos inocentes, mas responsáveis. Inocentes perante aquele que já não existe, responsáveis perante nós próprios e os nossos semelhantes». IMAG.288

15MAI862-1931 - Arthur Schnitzler: Escritor e médico austríaco - «Fantasia dourada, caprichosa! Aproximas-te de um de nós, lisonjeira, com fragrante amizade - e o transformas no mais feliz dos loucos, o poeta; como um inimigo, atacas o outro - e o transformas no mais lamentável dos poetas: o louco» (O Meu Amigo Ypsilon).IMAG.216-224-343

CALENDÁRiO

15JUL-23OUT2011 - No Porto, Espaço Fundação EDP apresenta Expo / A Caçadora Furtiva - Pinturas e Desenhos - Paula Rego. IMAG.11-13-31-199-205-258-269-325-342-364

1928-11AGO2011 - Francisco Solano López: Artista argentino de banda desenhada, ilustrador de El Eternauta, criado por Héctor Germán Oesterheld - «A minha versão de Robinson Crusoé».

18AGO2011 - Columbia TriStar Warner estreia Green Lantern / Lanterna Verde de Martin Campbell; com Ryan Reynolds e Blake Lively, sobre o original universo em quadradinhos por Martin Nodell e Bill Finger. IMAG.80-297

INVENTÁRiO

CAMPINOS
Derradeira obra de ficção do cinema mudo português, Campinos, ou Campinos do Ribatejo, teve distribuição de Mello, Castello Branco, e estreou no São Luiz, a 6 de Setembro de 1932. Em sagração, a vida pitoresca e aventurosa das gentes da lezíria, ilustrando o precário romance entre o maioral duma herdade e a filha do patrão. As lutas, o jogo-de-pau, o tropel das manadas, a vistosa espera de touros...
Além de produtor, argumentista e realizador, António Luís Lopes - cavaleiro tauromáquico que já havia falado no ecrã, como Conde de Marialva em A Severa (1931 - Leitão de Barros) - foi ainda protagonista, ao lado de seu filho Rafael Luís Lopes. Na filha do Lavrador, sobressaía Maria Helena Matos, também assistente de realização e co-autora da história. Contracenaram Maria Lalande e Dina de Vilhena. Com fotografia de Salazar Diniz, César de Sá e Francisco A. Quintela, a rodagem decorreu em 1931, no Ribatejo e na Praça de Touros de Algés, com interiores na Sociedade de Belas-Artes. O projecto inicial era sonorizar a fita no estrangeiro, expectativa depois abandonada por motivos económicos. Mesmo assim, Jaime Mendes assinou a partitura, com direcção musical de Júlio/Joel Canhão.

COMENTÁRiO

GREEN LANTERN
Concebido em quadradinhos por Martin Nodell e Bill Finger, Green Lantern / Lanterna Verde apareceu em 1940, na revista All-American Comics, sendo Alan Scott o herói humano original na Época de Ouro. Nos anos ’60, surge reformulado em Hal Jordan, membro fundador da Liga da Justiça - América, e cabendo uma recriação essencial ao artista Gil Kane. No universo dos DC Comics, distintos paladinos assumem Green Lantern, em vários tempos e diversos mundos. Cada super-herói possui um anel, forjado pelos Guardiães do Universo. Este prodigioso artefacto permite controlar a realidade física e gerar, mentalmente, materiais plasmados pela vontade e necessidade ocasional.
HAL JORDAN
Enquanto experimentava um simulador de voo, o piloto de testes Hal Jordan é sequestrado por uma estranha luz verde. Chegado ao destino, encontra um alienígena moribundo, numa nave espacial destroçada. Abin Sur confia-lhe um extraordinário anel e, mais tarde, Hal Jordan descobre que se converteu em Green Lartern, membro de uma corporação que luta pela paz e pela ordem intergaláctica, e responsável pelo controlo de um sector estratégico… Na Época de Prata dos quadradinhos, eis os pretextos para a reactivação de uma das mais populares e complexas sagas fantásticas, cujos múltiplos justiceiros intervêm solitária ou colectivamente, com amplas repercussões entre si.
DRAGON LORD
Antes de Alan Scott combater os nazis, durante a II Guerra Mundial, segundo a tradição clássica, um outro Green Lantern fez cintilar a luz esmeralda, sob um elã precursor - em plena China feudal, pelo ano 660 D.C. Doug Moench previu este misterioso primitivo, numa aventura excitante e perturbadora, ilustrada por Paul Gulacy e Joseph Rubinstein. Um eleito místico, Jong Li dedicou a sua vida à solidão, ao recolhimento interior, integrado no Último Templo dos Lordes-Dragões. Até que, subitamente, Jong Li adquire um poder sobrenatural, com a visita e a dádiva de um alienígena Green Lantern. Afinal, Jong Li terá que decidir entre o heroísmo humano e a devoção celestial...

EL ETERNAUTA
«Era de madrugada, cerca das três horas. Nas casas vizinhas, não havia qualquer luz… De repente, um ruído - um ruído na cadeira à minha frente, onde costumam sentar-se os que vêm falar comigo…»
Assim principia El Eternauta, mítica saga argentina em quadradinhos, sobre as aventuras e os desaires de Juan Salvo, um viajante do espaço-tempo que tenta salvar a família de uma tragédia iminente. Em causa, a invasão da Terra por Eles - seres com uma tecnologia muito superior à humana, e capazes de escravizar qualquer outra civilização. Concebida por Héctor Germán Oesterheld (1917-1977) e ilustrada por Francisco Solano López (1928-2011), esta epopeia trágica - centrada na ocupação de Buenos Aires, e nos lances da Resistência - simboliza uma crítica ao individualismo social e um canto à união entre os homens. Originalmente publicado na revista Hora Cero Semanal entre 1957 e 1959, e relançado por editorial Frontera, El Eternauta teve expansão por Oesterheld através de uma remake (1969) e de uma sequela (1975), a que se seguiram múltiplas derivações por diversos argumentistas e desenhadores.

VISTORiA

Família, tu és a morada de todos os vícios da sociedade; tu és a casa de repouso das mulheres que amam as suas asas, a prisão do pai de família e o inferno das crianças.
August Strindberg
- O Filho da Criada (excerto)

TRAJECTÓRiA

Schnitzler, Esse Desconhecido
Arthur Schnitzler nasceu em 1862, em Viena (Áustria), no seio de uma família judaica. Formou-se em Medicina e interessou-se pelo estudo da psiquiatria e da psicanálise e acompanhou os estudos de Freud, que considerava o escritor como uma espécie de seu duplo na literatura. Da sua obra literária destacam-se as suas peças de teatro, que tecem uma atmosfera psicológica, erótica e melancólica e causaram escândalo quando encenadas.
17FEV2011 - Diário de Notícias

ANUÁRiO

1702-1755 - Francisco António de Almeida: Músico e organista da Patriarcal, compositor da corte de D. João V, autor da ópera cómica La Spinalba - estreada no Paço da Ribeira em 1739, e cuja partitura foi editada em 1969 pela Fundação Calouste Gulbenkian.

1802-1879 - Jean Commerson: Aforista francesa - «A virtude é uma linha horizontal, a força é uma linha vertical e a astúcia uma linha oblíqua».

1872 - A criação do sirgo rende no distrito da Guarda 100 contos de réis.

BREVIÁRiO

Apenas Livros edita Cinema Português - Fitas Sem Falas 3 por José de Matos-Cruz.

Contraponto edita Contos dos Subúrbios de Shaun Tan; tradução de Maria Lúcia Lima.

Universal edita em CD, sob chancela Decca, Beau Soir pela violinista Janine Jansen, com o pianista Itamar Golan.

quinta-feira, setembro 14, 2017

IMAGINÁRiO #369

José de Matos-Cruz | 01 Maio 2012 | Edição Kafre | Ano IX – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

MOMENTOS
Em princípios da década de ’60, no Século XX, anuncia-se uma abertura política em Espanha, que permitiria, finalmente, a interrupção do exílio de Luis Buñuel (1900-1983) - que recua aos anos ’30, em França, com a ditadura de Primo de Rivera, e que se prolongaria por dois decénios depois, na América Latina, em pleno franquismo. Surgiu, portanto, a oportunidade de realizar Viridiana (1961) em Espanha, como coprodução hispano-mexicana, sendo dada luz verde ao projecto, mediante a aprovação oficial do argumento com alterações de circunstância. Após El Angel Exterminador (1962), outra vez no México, Buñuel regressou a França, para dirigir Diário de Uma Criada de Quarto (1964), adaptação do clássico de Octave Mirabeau em colaboração com Jean-Claude Carrière, e cuja acção foi transposta para 1930… Ciclos, circunstâncias de um cineasta surpreendente e ousado, em quem a lucidez, a ironia e a juventude criativa sempre estiveram patentes, entre o real e a transfiguração, tendo passado a assinar alguns dos filmes que, definitivamente, o consagrariam em todo o mundo.

MEMÓRiA

21AGO1891-1959 - Florencio Molina Campos: Pintor e ilustrador argentino - «O teu estilo não pode perverter-se. Trabalha e sofre nessas imagens, que deformas tão harmoniosamente!» (Pio Collivadino).

01MAI1852-1934 - Santiago Ramón y Cajal: Médico e histologista espanhol - «O ódio pode ser desarmado pelo amor e acabar por esquecer; mas a inveja, às vezes, nem à beira da sepultura se detém».

01MAI1872-1918 - Sidónio Pais: Oficial de Artilharia, professor universitário, quarto Presidente da República - «A chama que ardia nos corações dos revolucionários elevava-se até aos Céus, numa inspiração de Justiça, de Verdade e de Beleza, que os inspirava, vaga talvez na forma da realidade, mas firme e definida na intenção mais pura de salvar a Pátria e de buscar a felicidade do Povo» (1918). IMAG. 62-206-237

02MAI1772-1801 - Georg Philipp Friedrich von Hardenberg, aliás Novalis: Filósofo e escritor alemão - «Só há um templo no mundo e é o corpo humano. Nada é mais sagrado que esta forma sublime. Inclinar-se diante de um homem é fazer homenagem a esta revelação na carne. Toca-se o céu quando se toca um corpo humano». IMAG.135-316

02MAI1802-1861 - Henri-Dominique Lacordaire: Dominicano francês - «Não é o génio, nem a glória, nem o amor que medem a elevação da alma - é a bondade». IMAG.347

02MAI1922-2004 - Serge Reggiani: Actor, cantor, escritor, pintor - nascido em Itália, naturalizado francês em 1948 - «Combien de temps... / Combien de temps encore / Des années, des jours, des heures, combien ? / Quand j'y pense, mon coeur bat si fort... / Mon pays c'est la vie. / Combien de temps... Combien ?» (Le Temps Qui Reste).

1817-06MAI1862 - Henry Thoreau: Escritor e naturalista americano - «A virtude a que chamamos boa vontade entre os homens é, apenas, a virtude dos porcos na pocilga - que dormem bem juntos, para se aquecerem».

1901-06MAI1992 - Maria Magdalene Von Bosch, aliás Marlene Dietrich: Actriz alemã - «Dormir a sós é muito solitário, as crianças que o digam. Sempre que possível, mais vale dormir com alguém que amamos. Juntos, recarregaremos mutuamente as baterias, e sem custos». IMAG.254-352

07MAI1872-1944 - Piet Mondrian: Pintor holandês - «Não se faz arte para todos… E, ao mesmo tempo, a arte é de todos».

CALENDÁRiO

02JUL-18SET2011 - Em Lisboa, Culturgest apresenta, com direcção artística de Miguel Wandschneider, Hans Schabus - O Espaço do Conflito, sendo curador Pablo Fanego.

11AGO2011 - Columbia TriStar Warner estreia Os Smurfs / The Smurfs de Raja Gosnel; com Neil Patrick Harris e Sofía Vergara, em transposição das aventuras em quadradinhos de Les Schtroumpfs (1958) por Peyo/Pierre Cuttillard. IMAG.192

18AGO2011 - Zon Lusomundo estreia Cowboys & Aliens de Jon Favreau; com Daniel Craig e Harrison Ford, sobre a novela gráfica concebida por Scott Mitchell Rosenberg, escrita por Fred Van Lente e Andrew Foley, e ilustrada por Dennis Calero e Luciano Lima, para Platinum Studios (2006).

03SET-23OUT2011 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I apresenta Tudo o Que Acontece - 1976-2011, exposição de pintura de Emília Nadal.

PARLATÓRiO

Senhores Deputados e Senadores:
Eleito e proclamado o Presidente da República e constituído o Congresso, entra o país em plena normalidade constitucional.
A Constituição Política da República Portuguesa, com as alterações decretadas durante a ditadura revolucionária, regula até que o Congresso faça a sua revisão, as funções dos três poderes do Estado: legislativo, executivo e judicial independentes e harmónicos entre si.
Chefe da Revolução de 5 de Dezembro sinto vivo prazer em ter podido conduzir o país com a colaboração de todos os que tomaram parte no movimento revolucionário e o apoiaram após oito meses de dificuldades inúmeras e de áspera luta de todos os dias contra a demagogia, tendo sempre assegurado a ordem e a respeito pelas liberdades públicas e pelos direitos individuais, a uma situação perfeitamente normalizada, em que a soberania nacional se exerce por intermédio dos seus legítimos órgãos.
Foi para o povo que se fez a revolução de 5 de Dezembro, segundo as nobres aspirações dos que a levaram a efeito.
Foi com os olhos sempre fitos no povo que governei durante o período ditatorial.
É para o povo que desejo de todo o coração que se continue a governar de hora avante.
É tão grosseiro o erro que se comete supondo a Revolução de 5 de Dezembro reaccionária como supondo-a demagógica.
Nunca uma verdadeira revolução, e foi-o aquela, que o povo português na sua quase unanimidade consagrou, pode deixar de ser guiada por uma ideia de progresso.
Pela parte que me toca, só quem desconhece o meu passado e ignora a persistência do meu carácter, pode apodar-me de reaccionário. Tão pouco poderia associar-me a uma obra improgressiva.
Fui sempre e sou republicano; por isso procurei manter e consolidar a República.
Atravessava-se, na época em que começou a organização revolucionária, um período crítico em que os desmandos e a corrupção do poder perturbavam as consciências.
Em cada peito se gerava um fundo ressentimento de revolta. Era mister canalizar essas forças desorientadas, para evitar a anarquia evidente. Ou se fazia a coordenação dessas energias dispersas ou viria o caos. Não só a pátria estava em perigo. Se elementos republicanos não encarnassem em si as aspirações do país a revolução poderia vir a apresentar a forma duma restauração monárquica. Era mister actuar rapidamente.
Sidónio Pais
- Mensagem ao Parlamento
- 22JUN1918 - Abertura do Congresso da República (excerto)

VISTORiA

Diante do espectáculo maravilhoso do espaço aberto à sua volta, que existência viva, sensível, não ama a deliciosa luz, com as suas cores, raios e ondulações, a sua omnipresença gentil na forma do alvorecer? O mundo gigantesco das constelações despertas inala o dia como a mais profunda alma da vida, e flutua dançando em sua torrente azulada; inalam-no a pedra tranquilamente faiscante, a meditativa planta, o mundo selvagem, ardente e multiforme dos animais; porém, mais ainda, o nobre estrangeiro com olhos brilhantes, andar altivo, lábios melodiosos e cerrados. Como um rei que comanda a natureza mundana, ele invoca os poderes para transformações incontáveis, ata e desata inúmeras alianças, sustenta sob a forma celestial cada substância terrena. A sua presença por si só revela o esplendor maravilhoso dos reinos do mundo. 
E eu volto-me para a Noite misteriosa, sagrada e indescritível. Ao longe repousa o mundo, em sepulcro profundo; um lugar solitário e arruinado. Nas cordas do peito golpeia uma tristeza profunda. Estou pronto para mergulhar nas gotas do orvalho, e misturar-me com as cinzas. A distância da memória, os desejos da juventude, os sonhos da infância, as breves alegrias e aspirações vãs de uma vida longa, surgem com uma veste acinzentada, como o vapor da tarde antes do pôr-do-sol. Em outras plagas, a luz assentou as suas tendas felizes: e se eu nunca mais regressar para as suas crianças, que me esperam com a fé da inocência?
O que renova todos os pressentimentos do meu coração, e acalma o ar suave da tristeza? Negra Noite, não terás uma afinidade connosco?
O que seguras sob teu manto, cujos poderes ocultos afectam a minh’alma? O bálsamo precioso goteja do ramo de papoilas, em tuas mãos. Tu retiras os cravos de aço da alma. De modo obscuro e indescritível, somos tocados: estarrecido de prazer, contemplo a face grave que, suavemente e em prece, se inclina sobre mim, e, em meio a olhares confusos, revela o amor jovial da Mãe. Como a luz parece agora algo pobre e infantil! Como é agradável e bem-vinda a partida do dia!
Não é apenas porque a noite arrebata de ti os seus servos, e lança aos abismos do espaço os teus globos cintilantes, que proclamas, nos momentos de ausência, a sua omnipotência, e desejas o seu retorno?
Temos olhos que a noite abriu em nosso interior, mais divinos que aquelas estrelas brilhantes. A sua visão alcança além dos incontáveis hóspedes mais pálidos da noite. Sem auxílio da luz, eles penetram as profundezas que abrangem as regiões elevadas com inefável delícia. Glória à rainha do mundo, à grande profetisa dos mundos mais sagrados, à mãe cuidadosa do delicioso amor! Ela mandou-te a mim, tu a mais suavemente amada, sol gracioso da Noite. Agora desperto, pois sou teu e meu. Fizeste-me conhecer a Noite, entregaste-a a mim para que se tornasse minha vida; tu fizeste de mim um homem. Consumas o meu corpo com o ardor da minh’alma, de modo a que eu, tornado ar purificado, possa misturar-me completamente contigo, e assim, a nossa noite de núpcias durará eternamente.
Novalis
- Hinos Para a Noite I (excerto)

BREVIÁRiO

Universal edita em DVD, Diário de Uma Criada de Quarto / Le Journal d'Une Femme de Chambre (1964), A Bela de Dia / Belle de Jour (1967), O Fantasma da Liberdade / Le Fantôme de la Liberté (1974) e Este Obscuro Objecto do Desejo / Cet Obscur Objet du Désir (1977) de Luis Buñuel. IMAG.172-263-314

Assírio & Alvim edita Vidas Imaginárias de Marcel Schwob (1867-1905); tradução e apresentação de Aníbal Fernandes.

Murecords edita em CD, sob chancela Arte das Musas, Vento por Sete Lágrimas.