quinta-feira, janeiro 18, 2018

IMAGINÁRiO #443

José de Matos-Cruz | 16 Novembro 2013 | Edição Kafre | Ano X – Semanal – Fundado em 2004


PRONTUÁRiO

PRODÍGIOS
Sob o signo prodigioso dos efeitos especiais, em que o cinema se transfiguraria como arte e espectáculo, a marca pioneira de Douglas Trumbull distingue-se em obras-primas do fantástico e da ficção científica - como 2001 - Odisseia no Espaço / A Space Odissey (1968) de Stanley Kubrick, A Ameaça de Andrómeda /The Andromeda Strain (1970) e O Caminho das Estrelas / Star Trek (1979) de Robert Wise, ou Encontros Imediatos do Terceiro Grau /Close Encounters of the Third Kind (1977) de Steven Spielberg e Perigo Iminente / Blade Runner (1982) de Ridley Scott.
Na realização, Douglas Trumbull lançou-se com O Cosmonauta Perdido / Silent Running (1971), de que também concebeu a ideia original, sendo argumentistas Michael Cimino, Deric Washburn e Steve Boshco. A acção decorre no Século XXI, relatando a saga de Freeman Lowell, um cientista que, na companhia de vários robots, e após eliminar os companheiros, se refugia nos confins do sistema solar, em imensa nave / vegetarium, onde se conservam os últimos exemplares botânicos, resgatados da depredação da natureza terrestre…

VISTORiA

Elegia ao Companheiro Morto

Meu companheiro morreu às cinco da manhã
Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã

Ah antes fosse noite noite apenas noite
sem a promessa da manhã

Ah antes fosse noite noite noite apenas noite
e não houvesse em tudo a promessa da manhã

Deitado para sempre às cinco da manhã

Agora que sabia olhar os homens com força
e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã

Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?

E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite
meu companheiro ficou deitado para sempre
e com a boca cerrada para sempre
e com os olhos fechados para sempre
e com as mãos cruzadas para sempre
imóvel e calado para sempre

E era quase manhã E era quase amanhã
Mário Dionísio

CALENDÁRiO

1907-05DEZ2012 - Oscar Niemeyer: Arquitecto brasileiro, um dos grandes criadores do Século XX, tendo revolucionado o uso do betão - «Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein».

1920-05DEZ2012 - Dave Brubeck: Compositor americano, maestro e pianista de jazz, autor de In Your Own Sweet Way - «Faço os possíveis por conservar o Verão dentro de mim - sobretudo, para dissipar as sombras do resto do tempo, e não só do Inverno».

1943-05DEZ2012 - Joaquim Benite: Encenador português e crítico teatral, fundador do Grupo de Campolide (1970) e director da Companhia de Teatro de Almada (1978), criador do Festival de Almada (1984) - «Um grande lutador. Um homem que construiu um grupo, um edifício e um organismo, e soube lidar com as forças vivas de uma maneira quase inédita» (Nuno Carinhas). IMAG.47-333

1920-11DEZ2012 - Robindro Shaunkor Chowdhury, aliás Ravi Shankar: Compositor e músico indiano - inspirou a música pop, ao colaborar com The Beatles (anos ’60) - pai de Norah Jones: «A música do meu progenitor chegou a milhões de pessoas. Vou sentir muito a sua falta».

VISTORiA

ROGÉRIO PAULO

Rogério Gomes Lopes Ferreira nasceu em Silva Porto, Angola, a 17 de Novembro de 1927, tendo falecido em Lisboa, a 25 de Fevereiro de 1993. Estreou-se no Teatro Estúdio do Salitre, sob a direcção artística de Gino Saviotti. Em 1950, iniciou uma actividade profissional na Companhia de Alves da Cunha. Foi um dos fundadores do Teatro Moderno de Lisboa. Em 1962, classificou-se em 1º lugar no Curso da Universidade do Teatro das Nações. Ao longo da sua carreira, efectuou diversas deslocações profissionais ao estrangeiro - Paris (1955, 1962), Varsóvia (1963) - como intérprete, encenador e conferencista, ou participante no Festival Internacional de Teatro. Interveio na Radiotelevisão Portuguesa/RTP desde as primeiras emissões, tendo a sua personalidade dramática ressaltado em pequeno e em grande ecrãs. Destacam-se: A Garça e a Serpente (1952), O Costa d’África (1954), Um Pedido de Casamento (1957 - Tv), Encontro Com a Vida (1960), L’Anglaise / A Inglesa (1964 - Tv), O Crime de Aldeia Velha (1964), O Elixir do Diabo / Forbiden Fruit (1964), O Triângulo Circular / Le Grain de Sable (1964), Trilogia das Barcas (1969 - Tv), Tin Can (1971), A Morte dum Caixeiro Viajante (1974 - Tv), Português, Escritor, 45 Anos de Idade (1974 - Tv), O 25 de Abril (1974 - Participação), 24, 25, 26 (1975 - Tv), Recompensa (1977), O Convidado Debaixo da Mesa (1979), Retalhos da Vida de Um Médico (1979 - Sr tv), La Vita E Bella / Zhizn Prekrasna (1979), Verde Por Fora, Vermelho Por Dentro (1980), A Destruição de Marta Heiman / La Muñeca Rota (1981), La Guerrillera (1981), Sem Sombra de Pecado (1982), Resposta a Matilde (1986 - Tv), A Relíquia (1987 - Sr tv), O Luto de Electra (1992 - Sr tv), Zéfiro (1993), O Judeu (1995). A sua vida e actividade artística encontra-se testemunhada em Rogério Paulo (1982 - Noémia Delgado).

MEMÓRiA

1916-17NOV1993 - Mário Dionísio: Ficcionista, poeta, ensaísta e pintor português - «As bocas que estão fechadas / não estão caladas // Os braços que estão caídos / não estão imóveis // E os olhos que estão voltados / não estão sem ver» (Silenciosa Música do Cosmos). IMAG. 89-243

1927-25FEV1993 - Rogério Paulo: Actor português do teatro, do cinema e da televisão, um dos fundadores do Teatro Moderno de Lisboa (1961) - «uma pedrada no charco naquela época» (Glicínia Quartin). IMAG.107-155

21NOV1923-2008 - Xie Jin: Cineasta chinês, realizador de O Destacamento Vermelho Feminino (1957) - «O seu talento cintilou entre os contemporâneos que se afirmaram após a instauração da República Popular em 1949, e foi um dos poucos artistas que continuaram a dirigir filmes durante e após a Revolução Cultural. Acusado de humanismo burguês, foi condenado a fazer trabalho comunitário nas zonas rurais, e passou algum tempo em prisão domiciliária. Mais tarde, houve quem o denunciasse por oportunismo, quando a mulher de Mão Tsé-Tung, Jian Qing, o envolveu na produção de fitas segundo o modelo ópera, durante o Gangue dos Quatro» (Ronald Bergan). IMAG.222

22NOV1913-1976 - Edward Benjamin Britten: Compositor, maestro, violinista e pianista britânico, autor da ópera Peter Grimes (1945). IMAG.71-298

BREVIÁRiO

Eureka Entertainment edita em Blu-ray, O Cosmonauta Perdido / Silent Running (1971) de Douglas Trumbull; com Bruce Dern e Cliff Potts. IMAG.155
Avie edita em CD, Benjamin Britten [1913-1976]: Winter Words pelo tenor Nicholas Phan; ao piano, Myra Huang.

Cotovia edita Carmina de Catulo (84aC-54aC); introdução de Ana Alexandre Alves de Sousa, tradução de José Pedro Moreira e André Simões.

Aeon edita em CD, Samuel Barber [1910-1981], [Hector] Berlioz (1803-1869), [Benjamin] Britten (1913-1976) por Anne-Catherine Guillet, com Orchestre Philharmonique Royal de Liège, sob a direcção de Paul Daniel. IMAG.54-71-78-84-254-298-308-405-409

COMENTÁRiO

Oscar Niemeyer

Para os arquitectos criados pelo movimento moderno, Oscar Niemeyer posiciona-se no mais alto grau de sabedoria. Invertendo o ditado familiar de que a forma segue a função, Niemeyer demonstrou que, quando a forma cria beleza, ela transforma-se em funcional, e, portanto, em fundamental na arquitectura.
Dizem que Iuri Gagerin, o pioneiro cosmonauta russo, visitou Brasília e comparou a experiência com aterrar num planeta diferente. Muitas pessoas, quando vêem a cidade de Niemeyer pela primeira vez, devem sentir o mesmo. É audaciosa, escultural, colorida e livre - e não se compara a nada que se tenha feito antes. Poucos arquitectos na história recente têm sido capazes de convocar tal vocabulário vibrante, e estruturá-lo em tal linguagem tectónica, brilhantemente comunicativa e sedutora.
Norman Foster

Os encenadores nunca ficam na história. Só os escritores, como o Shakespeare. Sabe, acho que vale a pena viver para nos divertirmos. Lutar por coisas, para cumprir missões, não. O teatro é um sinal de civilização que está na origem da sociedade. Até nos animais. Quando chego a casa, o meu cão faz uma dança que parece egípcia, pá. São rituais de representação. Mas o teatro não tem missão nenhuma. É uma coisa que as pessoas fazem porque gostam e as outras vêem porque lhes dá prazer.
Joaquim Benite

quarta-feira, janeiro 17, 2018

IMAGINÁRiO #442

José de Matos-Cruz | 08 Novembro 2013 | Edição Kafre | Ano X – Semanal – Fundado em 2004


PRONTUÁRiO

METÁFORAS
O bizarro estilo gráfico e a mordaz sagacidade narrativa são características essenciais do engenho criativo de Joann Sfar, ilustrador e argumentista de O Gato do Rabino - distinguido com o Prix du Trentenaire no Festival d’Angoulême e, nos EUA, pelos Eisner Awards como Best Edition of Foreign Material em 2006 - entre nós sob chancela Asa, que lançou os tomos O Paraíso Terrestre e Jerusalém Em África em duplo álbum, após o triplo distribuído com o jornal Público, sobre os iniciais O Bar-Mitzvá, O Malka dos Leões e O Êxodo. Estamos em Argélia, pelo início do Século XX. Ao engolir um papagaio, um gato conquistou o dom da palavra, começando a questionar-se se não será judeu, e trocando diálogos subtis ou virtuais com o seu mestre ou o leão que os acompanha… Um imaginário furtivo, fabuloso, metafórico - sublinhado pela deriva simbólica, insinuante, ao envolver fascinantes personagens humanas e animalistas, sob os caprichos do signo divino e as contingências do devir histórico - apela aos leitores motivados pelo elã franco-belga da banda desenhada europeia, destacando-se ainda as cores luxuriantes, intimistas ou alegóricas de Brigitte Findakly. IMAG.243

CALENDÁRiO

1927-02DEZ2012 - Décio Pignatari: Poeta brasileiro, ligado ao modernismo/concretismo - «Quase por dever de ofício, tinha que detonar essa eterna carnavalização mitológica brasileira que cria pedestais inquestionáveis na cultura» (Alexandre A. Moreira). IMAG.88

BREVIÁRiO

Harmonia Mundi edita em CD, Ludwig van Beethoven [1770-1827] - Diabelli Variations pelo pianista Andreas Staier.  
IMAG.134-163-202-204-210-228-229-236-237-239-255-268-285-298-303-323-360-375-384-409-430-431-432-436

VISTORiA

Não entres docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

Dylan Thomas
(Tradução de Fernando Guimarães)




Uma Vida Esquecida
Para o Fernando Alves dos Santos
Eu conheço o vidro franja por franja
meticulosamente
à porta parado um homem oco
franja por franja no espaço
meticulosamente oco uma porta parada.

Um relógio dá dez badaladas ininterruptamente
dez badaladas por brincadeira dança
um homem com pernas de mulher
e um olhar devasso no Marte
passo por passo uma criança chora
uma águia e um vampiro recuados no tempo.
António Maria Lisboa
- Ossóptico e Outros Poemas

beba coca cola
babe cola
beba coca
babe cola caco
caco
cola
cloaca
Décio Pignatari


VISTORiA

Aos catorze anos, tal como hoje, tinha pernas bem feitas, pés bem colocados, ancas com algum relevo, peito grande e extremamente direito, ombros descaídos, atitude firme e graciosa, marcha rápida e ligeira. A boca é um pouco grande. Não tenho um sorriso sedutor. Os olhos, pelo contrário, não são fortes e grandes. A íris é cinzenta-acastanhada. O olhar é aberto, franco, vivo e doce, coroado por sobrancelhas louras como os cabelos e bem desenhadas. Expressão afectuosa e movimentos sérios. Nariz um pouco grosso. Fronte larga. O queixo tem características fisionómicas de uma certa voluptuosidade. Pele doce, braço arredondado, mão agradável, sem ser pequena. Dedos alongados e minuciosos. Dentes brancos e bem alinhados, indicadores de uma saúde perfeita. Estes são os dons que a natureza me deu. O meu porte foi desenhado algumas vezes mas nenhuma dessas imitações deu a ideia da minha pessoa. A minha imagem é difícil de fazer. Tenho muito mais espírito que figura. Muito mais expressão que trato. A minha fisionomia altera-se quando estou inspirada do mesmo modo que o meu espírito se desenvolve em proporção daquilo que se apodera de mim.
Madame Roland
- Memórias (excerto)

MEMÓRiA

1870-08NOV1953 - Ivan Bunin: Escritor russo, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1933) - «Se quiserem dividir a minha obra por géneros, encontrarão vários volumes de poesia original, dois volumes de traduções e dez volumes de prosa». IMAG.295

1754-08NOV1793 - Marie-Jeanne Roland de la Platière, aliás Madame Roland: Personalidade da Revolução Francesa, membro do Partido Girondino - «Liberdade, liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!».
 
1914-09NOV1953 - Dylan Thomas: Poeta galês - «Um alcoólatra é alguém de quem não gostamos, e que bebe tanto como nós».

10NOV1483-1546 - Martinho Lutero: Sacerdote e teólogo alemão, ligado à Reforma Protestante - «Pela graça de Deus, eu conheço Satã muito bem. Se Satã pode inverter a Palavra de Deus e perverter as Escrituras, o que fará ele com minhas palavras - ou as palavras dos outros?» (Confession Concerning Christ's Supper). IMAG.357

1928-11NOV1953 - António Maria Lisboa: Poeta português - «Preocupado com uma verdadeira aproximação às culturas exteriores à tão celebrada civilização ocidental, há na sua poesia uma busca incessante de um futuro tão antigo como o passado. Pode, e decerto deve, ser considerado o mais importante poeta surrealista português, pela densidade da sua afirmação e na direcção desconhecida para que aponta» (Mário Cesariny).

12NOV1923-2011 - Vicco Von Bülow, aliás Loriot: Humorista alemão, escritor, ilustrador e actor - «Quando tentamos algo, com vontade, mas acabamos por falhar, é então que a comédia se manifesta» (2003). IMAG.372

13NOV1923-2011 - Blanca Rosa Henrietta Stella Welter Vorhauer, aliás Linda Christian: Actriz americana de cinema e televisão intérprete de A Marca do Zorro (1940) - «A princípio, olhavam para mim e propunham-me um papel… Mas, nem se apercebiam de que eu sabia representar». IMAG.231-366

1878-15NOV1953 - João de Deus Ramos: Escritor e pedagogo português, filho de João de Deus, coordenador de Prosódia Portuguesa - Estudo Prévio da Ortografia e de O Guia da Cartilha Maternal: Prático e Teórico, Ministro da Instrução Pública (1920) e do Trabalho (1925), fundador da rede de escolas infantis Jardins Escola João de Deus.

PARLATÓRiO

«Ama o teu próximo como a ti mesmo.»
Se queres saber como é preciso amar o próximo, e se disso queres um exemplo excelente, reflecte atentamente sobre a maneira como amas a ti mesmo. Na necessidade ou no perigo, decerto desejarias ansiosamente receber amor e socorro mediante todos os conselhos possíveis, os meios e as forças não somente de todos os homens mas também de todas as criaturas. Por conseguinte, não precisas de nenhum livro que te ensine e te eduque sobre como deves amar o próximo; melhor que todos os códigos, tu o tens no coração.  
Martinho Lutero

Surrealidade não é só do Surrealismo, o Surreal é do Poeta de todos os tempos, de todos os grandes poetas.
António Maria Lisboa
(a Mário Cesariny)

TRAJECTÓRiA

Linda Christian, a Bomba Anatómica

Estrela de Hollywood dos anos 1940, Linda Christian ficou então conhecida como a bomba anatómica, pela revista Life. Morreu em Palm Springs, nos Estados Unidos, em 22 de Julho de 2011.
Nascida a 13 de Novembro de 1923 no México, Linda Christian interpretou - entre outras personagens - Mara no filme Tarzan e as Sereias, o último protagonizado por Johnny Weissmüller em 1948.
Linda Christian foi, também, a primeira James Bond girl, na adpatação para a televisão de Casino Royale, em 1954.
Milhares de pessoas assistiram ao casamento em Roma de Linda Christian com a estrela Tyrone Power, em 1949, na Igreja de Santa Francesca Romana, a dois passos do Coliseu. Os noivos foram recebidos pelo papa Pio XII. Depois da morte de Tyrone Power, Linda Christian casou-se com o actor inglês Edmund Purdom.
23JUL2011 - Diário de Notícias

terça-feira, janeiro 16, 2018

IMAGINÁRiO #441

José de Matos-Cruz | 01 Novembro 2013 | Edição Kafre | Ano X – Semanal – Fundado em 2004


PRONTUÁRiO

TRANSGRESSÕES
Existem no território fílmico certas zonas que a indústria americana se limita a sondar, ou das quais projecta apenas um reflexo alusivo. Várias razões contribuem para que assim aconteça. Antes de mais, estamos perante uma actividade de extremo risco e sensibilidade - quer numa perspectiva económica, quer enquanto espectáculo público. Há estratégias de investimento, regras de exploração impossíveis de quebrar, para além de uma subversão mantida segundo processos convencionais. Assim ocorre, com especial acuidade, no domínio da acção criminal - em que os conflitos humanos se contrastam, inevitavelmente, pelos desígnios do bem e do mal; ou a denúncia sociológica, institucional, se circunscreve cenicamente aos signos de um epílogo expiatório. Entre os cineastas cuja carreira se distingue pela transgressão implícita num contexto, simultaneamente, melodramático e violento, Abel Ferrara culmina tais virtualidades a um nível excepcional, com O Rei de Nova Iorque / King of New York (1990)…

CALENDÁRiO

1918-05DEZ2012 - Papiano Manuel Carlos de Vasconcelos Rodrigues, aliás Papiano Carlos: Ficcionista e poeta português, militante comunista, autor de Mãe Terra (1948), co-director dos fascículos Notícias de Bloqueio (1957-1961), membro do movimento neo-realista - «Os homens construíram a cidade, construíram-na, ergueram-na sobre os ombros com cimento.» (Uma Estrela Viaja Na Cidade - 2010, excerto).

07DEZ2012-23FEV2013 - Centro Cultural de Belém/CCB expõe O Ser Urbano. Nos Caminhos de Nuno Portas - cinquenta anos de percurso profissional do arquitecto e urbanista, sendo comissário Nuno Grande.
26ABR-04MAI2013 - No Centro Cultural de Belém/CCB, Artistas Unidos apresenta A Estalajadeira de Carlo Goldoni (1707-1793); encenação de Jorge Silva Melo, com António Simão e Catarina Wallenstein. IMAG.134-405

VISTORiA

Telha de Vidro

Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...

A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que – coitados – tão velhos
só hoje é que conhecem a luz do dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.

Que linda camarinha! Era tão feia!
– Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão bem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!
Rachel de Queiroz

VISTORiA

E vós, senhores, aproveitai tudo o que vistes para vantagem e segurança dos vossos corações. E, se alguma vez estiverdes numa ocasião de duvidar, quase a ceder, pensai nos artifícios que vistes… E, lembrai-vos da Estalajadeira!
Carlo Goldoni
- A Estalajadeira


Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. Trata-se de jogos; é preciso primeiro responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser estimado, deve pregar com o seu exemplo, percebe-se a importância dessa reposta, porque ela vai anteceder o gesto definitivo. São evidências sensíveis ao coração, mas é preciso ir mais fundo até torná-las claras para o espírito. Se eu me pergunto por que julgo que tal questão é mais premente que uma outra, respondo que é pelas acções a que ela se compromete. Nunca vi ninguém morrer por causa do argumento ontológico. Galileu, que sustentava uma verdade científica importante, abjurou dela com a maior tranquilidade assim que viu sua vida em perigo. Em certo sentido, fez bem. Essa verdade não valia o risco da fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol, gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente.
Albert Camus
- O Mito de Sísifo (excerto)

COMENTÁRiO

Carlo Goldoni
Não é fácil saber que o mundo está a mudar. E Goldoni sabe-o, vai vendo o velho ruir, o novo afirmar-se, anota sem fim, tudo vai trazendo para o palco, gente, coisas, contratos, cadeiras, o palco tem um íman a que ele se oferece. Volto sempre a Goldoni, nasceu ali um teatro, nasceu um mundo.
Jorge Silva Melo

PARLATÓRiO

No segredo do meu coração, não me sinto em estado de humildade senão perante as vidas mais pobres ou as grandes aventuras do espírito humano… Entre as duas, encontra-se hoje uma sociedade que dá vontade de rir.
Albert Camus

MEMÓRiA

03NOV1913-2008 - Albert Cossery: Escritor egípcio, de expressão francesa - «Um preguiçoso inteligente é alguém que reflectiu sobre o mundo em que vive... Não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E, quanto mais preguiçoso formos, mais tempo temos para reflectir». IMAG.205

03NOV1933-2011 - John Barry: Músico inglês, compositor de bandas sonoras para filmes, distinguido com cinco Oscars - África Minha (1985), Danças Com Lobos (1990)… «Todos esses filmes são sobre uma sensação de perda. Não sei se isso vem da II Guerra Mundial. Mas é algo que deixa marca, como não poderia deixar de ser». IMAG.342
1910-03NOV2003 - Rachel de Queiroz: Ficcionista, poeta e dramaturga brasileira - «Fala-se muito na crueldade e na bruteza do homem medievo. Mas o homem moderno será melhor?» (As Terras Ásperas - 1993). IMAG.299

1840-06NOV1893 - Pyotr Ilyich Tchaikovsky: Compositor russo - «Tenho os nervos completamente em frangalhos. A minha sinfonia não progride. Vou morrer em breve, bem o sei, antes mesmo de acabar minha sinfonia. Odeio a humanidade, e só desejo retirar-me para um deserto» (1866). IMAG.235-261-273-280-296-310-337-364

07NOV1913-1960 - Albert Camus: Filósofo, ensaísta, ficcionista e dramaturgo francês - «Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldades passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar. De certo modo, isto era uma vantagem» (O Estrangeiro - excerto). IMAG.258

INVENTÁRiO

O Rei de Nova Iorque / King of New York (1990) transcende o talento estilístico, sofisticado de Abel Ferrara, em conluio com Nicholas St. John, o seu argumentista essencial. Em causa está Frank White, um líder do submundo, cuja saída da prisão assinala uma vaga de execuções entre facínoras e outros rivais. Carismático, sedutor, mas também fantomático, com paranóica perversidade, Frank contrapõe ao seu domínio de terror a influência política, o desprezo pela lei estrutural, eliminando aqueles que corrompem ou humilham os seus semelhantes. Simultaneamente, ambiciona restaurar um hospital no bairro onde nasceu, obtendo formidáveis lucros com o tráfico de drogas. Em seus valores desvirtuados, Frank limita-se a prosperar numa metrópole hipócrita e viciada - que O Rei de Nova Iorque exibe como atmosfera inexorável, subjugadora, entre tensões e contaminações, até ao exorcismo alucinatório… Através desta fábula de agonia, desta visão hiperrealista, sobressai um assombroso Christopher Walken como Frank White - enfim confrontado com a sua nemésis, mas sempre dominador e solitário ao enfrentar a própria sublimação da morte. Intocável, na grotesca tragédia que viveu, a ferro e fogo.

BREVIÁRiO

Arrow Vídeo edita em Blu-ray, O Rei de Nova Iorque / King of New York (1990) de Abel Ferrara; com Christopher Walken e David Caruso. IMAG.131

Sistema Solar edita Como os Loucos de Albert Londres (1884-1932); tradução de Aníbal Fernandes.

Tinta da China edita As Primeiras Mulheres Repórteres - Portugal Nos Anos 60 e 70 de Isabel Ventura; prefácio de Fernando Alves.

domingo, janeiro 14, 2018

IMAGINÁRiO #440

José de Matos-Cruz | 24 Outubro 2013 | Edição Kafre | Ano X – Semanal – Fundado em 2004


PRONTUÁRiO

TRAVESSIAS
Um dos nomes maiores da literatura aventuresca, tendo percorrido todas as vertentes do imaginário, em diversas épocas e regiões, com as suas personagens imortais em peripécias trepidantes, que renderam sucessivas gerações de leitores jovens em todo o mundo, Emílio Salgari (1862-1911) congregou a realidade e a fantasia, o sonho e o exotismo, a audácia e o crepúsculo, a história e o futuro, em testemunhos visionários cujo culto e inspiração se estenderiam às mais distintas manifestações artísticas. Entre nós, e assinalando o centenário do seu nascimento, Os Piratas do Deserto - sob chancela Asa - é uma adaptação livre, em novela gráfica, de A Formosa Judia e Os Piratas do Deserto, com argumento e ilustração de Santos Costa. O primeiro autor português a transpor em quadradinhos o romanesco salgariano, há cerca de trinta anos, nas páginas do Mundo de Aventuras, logra uma obra simbólica e alusiva, em coerente preto e branco, conjugando pela maturidade estilizada a sua original inspiração, sob a expectativa primordial de suscitar «uma sensação extraordinária». IMAG.320

MEMÓRiA

1939-18OUT2003 - Manuel Vázquez Montalbán: Escritor espanhol - «Abriu um só olho como se temesse que os dois lhe confirmassem exageradamente aquele céu de nuvens negras, a obscenidade daquela pança cor-de-burro-quando-foge que sujava a paisagem tropical de luxo, transformava o arvoredo numa turba infame de palmeiras e bananeiras de chumbo oxidado» (A Rosa de Alexandria - 1984) .

24OUT1913-1984 - Tito Gobbi: Barítono italiano - entre as principais personagens contam-se Dom Giovanni, Rigoletto, Boccanegra, Falstaff, Scarpia, Iago ou Amonasro, tendo aparecido como actor /cantor em cerca de 25 filmes, sobretudo versões de óperas por Giuseppe Verdi, Giacomo Puccini e Gioachino Antonio Rossini. IMAG.331

1855-26OUT1933 - José Malhoa: Pintor português - A sua arte «traduzia com fidelidade e simplicidade a vida rural. A riqueza plástica, a expressividade das cores, a intensidade dos seus quadros de costumes foram muito apreciadas pelo público no final do Século XIX, início do Século XX. José Malhoa dedicou-se a temas relacionados com a vida rural, com o campo, com a natureza» (Bárbara Santos). IMAG.54-198-208-312

27OUT1923-1997 - Roy Fox Lichtenstein, aliás Roy Lichtenstein: Pintor americano, ligado à Pop Art e inspirado pela banda desenhada - «Quando eu já não estiver por cá, gostaria de doar a minha alma à ciência». IMAG.70

27OUT1923-1999 - Alexandre Pinheiro Torres: Escritor português - «Eu sei como te estimavam, como se divertiam nas tuas prelecções, como os ensinavas a ler, a escrever e a estudar, como tinham por ti aquela admiração especial que costumamos reservar aos professores que de facto mudaram alguma coisa na nossa vida» (Carlos Ceia - Preito, excerto). IMAG.237

28OUT1903-1966 - Arthur Evelyn St. John Waugh, aliás Evelyn Waugh: Escritor britânico - «Se os políticos e os cientistas fossem menos exuberantes, poderíamos ser todos muito mais felizes». IMAG.180-395-396

28OUT1943-2010 - João Aguiar: Escritor português - «A minha vida não dava um livro, e ainda bem. Em compensação, o facto de os meus livros darem uma vida - boa ou má, não importa para o caso -, esse facto devo-o, em grande parte, aos momentos de não-glória… E estou-lhes muito grato»
(Jornal de Letras - 2005). IMAG.235-307

1920-31OUT1993 - Federico Fellini: Cineasta italiano - «A minha natureza não é política e, a maior parte das vezes, o discurso ideológico confunde-me, não o compreendo. Entendo isto como uma fraqueza, como uma de minhas carências».
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CALENDÁRiO

07-10DEZ2012 - Centro Cultural de Belém apresenta Os Pássaros - peça original de André Murraças, baseada no filme de Alfred Hitchcock (1899-1980) e no conto de Daphne Du Maurier (1907-1989), com André Patrício e Patrícia Roque.
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VISTORiA

O presente como o único aceitável corresponde ao projecto de construir um mundo em que os centros de decisão já estão predeterminados pelos guardiães da pusilanimidade símia... Como se vivêssemos num planeta dominado pelos macacos sobreviventes à catástrofe do racionalismo utopista, ameaçam-nos com novas catástrofes se deixamos de ser macacos.
Manuel Vázquez Montalbán
- Manifesto do Planeta dos Macacos (1995 - excerto)

«Você sabe, ó Alexandre Pinheiro Torres, que é que publiquei de útil?», dispara-me a certa altura.
Se eles se me dirige usando o meu nome por inteiro é porque quer dar ênfase especial ao que vai fazer. Atenção, pois. Atenção? Neste momento nem preciso de reler os meus comentários de há dezassete anos. Sei que perguntei a mim próprio quando é que o Carlos deixaria de se convencer de que o que escrevera não tinha qualquer préstimo. Pedia ou não ele insistentemente aos amigos que não lhe falassem nisso? Isso, o quê? Aquilo a que ele chamava esse grande equívoco: a sua obra. «Eu não sou escritor», repetia. «Escritores são vocês ou eles.» Dizia isto com uma seriedade fria, por detrás da qual não sabemos se havia a gargalhada, mas de quem se riria ele? De nós (por certo), dos tais eles (quem seriam?), dele próprio (como saber?)? Fosse como fosse, era muito difícil conseguir que Carlos de Oliveira se referisse aos seus livros. Só de longe a longe, quase envergonhado, aparentemente inseguro, mostrava uma ou outra coisa inédita a alguns dos seus mais íntimos (Herberto Helder, Gastão Cruz, Abelaira, Dionísio, Gomes Ferreira, Alzira Seixo, que sei eu?) e aguardava, ansioso, uma resposta. A situação nunca deixava de me intimidar quando o Carlos nela me envolvia. Não sabia senão fazer-lhe um elogio caloroso. Como poderia ser doutra forma? Resmungava: «Você, afinal, é como os outros.» Levantava-se bruscamente (passava-se isto sempre em sua casa, que nos cafés é que ele não lia ou deixava ler nada a ninguém), e tornava-se às vezes incómodo na obstinação de que o que acabara de mostrar teria, por força, qualquer defeito, talvez fosse tudo mau (era a hipótese mais aceitável). Para que diabo lhe servia o amigo se este lhe escondia a verdade?
Alexandre Pinheiro Torres
(Em Memória Fiel de Carlos de Oliveira - excerto)

O único verdadeiro pecado do mundo terreno é a estupidez.
Não podes cometer esse pecado, Solitão. Não hei-de permitir uma traição tão grande e tão feia.
Estás à beira da vitória.
Ter uma vida física liberta de cuidados. Podes saborear o melhor. A beleza, o conforto, os objectos de arte, as mulheres, a comida, os vinhos, ah, Solitão, não podes fazer o que estão a pensar fazer, nunca o permitirei, hei-de quebrar essa decisão e alimentar esse medo.
João Aguiar
- O Navegador Solitário (1996 - excerto)

BREVIÁRiO

Quetzal edita A Arte da Viagem de Paul Theroux; tradução de Freitas e Silva. IMAG.366

Compact edita em CD, sob chancela Followspot, Joseph Haydn [1732-1809]: 3 Quartetos de Cordas por Quarteto Lacerda.
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Clube do Autor edita Ironias do Destino de Karen Blixen/Isak Dinesen (1885-1962); tradução de Maria João Freire de Andrade. IMAG.42-266-385

Harmonia Mundi edita em CD, Mariusz Kwiecien: Slavic Heroes com Polish Rádio Symphony Orchestra, sob a direcção de Lucasz Borowicz.

Teodolito edita Tirano Banderas de Ramón del Valle-Inclán (1866-1936); tradução de Carlos da Veiga Ferreira.

Universal edita em CD, sob chancela Deutsche Grammophon, Anton Bruckner [1824-1896]: Sinfonia Nº 7 por Staatskapelle Berlin, sob a direcção do pianista Daniel Barenboim. IMAG.104-233-323-404-437

Dom Quixote edita Goodbye Columdus e Cinco Contos de Philip Roth; tradução de Francisco Agarez. IMAG.182-198-240-290-328-375-390-412

PARLATÓRiO

Nunca percebi como dois homens podem juntar-se para escrever um livro. Para mim, é como precisar de três pessoas para produzir um filho.
Evelyn Waugh

A minha arte não é um mero exercício ou um jogo literário. Quando decido pintar um quadro, pretendo que o resultado seja criativamente organizado. Ou seja, trabalho com seriedade, calculando, por exemplo, a proporção adequada das cores. Mais do que a ironia, interessa-me que a obra seja um todo coerente.
Roy Lichtenstein (1983)

Tenho conseguido não ser um escritor comercial, recuso-me a fazer uma escrita comercial… Preciso muito de vender livros, vivo disso, mas não faço essa concessão…
Temos edições a mais para o público que temos, isso é certo. E eu pergunto-me muitas vezes que interesse tem a publicação de certos livros e para que fazem as editoras esse esforço. Também temos problemas ao nível da distribuição. Mas na produção literária, em definitivo não estamos em crise, temos bons escritores.
João Aguiar